(Favor imaginar aqui a imagem que o blogger não está a deixar colocar da capa do livro)
Este "tenho lido", na onda do andar constantemente "à procura de um milagre" mas devo dizer que gosto bastante do livro. A forma como está escrito, dá-nos a sensação de estarmos no consultório do Dr. Atkins, que por acaso é bem simpático, sendo esclarecidos por ele à medida que nos vão surgindo as dúvidas.
Além disto, é uma aproximação às dietas de perda de peso menos comum nos dias que correm, apesar de não ter nada de recente, e fala de forma científica mas compreensível de alguns processos que se passam no nosso corpo que não entendemos e sobre os quais nunca nos questionámos. Gosto particularmente do ponto de vista do senhor em relação aos hidratos de carbono serem quase como uma "droga" e provocarem, efectivamente, vício. Como sempre me senti um pouco "viciada" no que diz respeito a comida, encaixei-me completamente no perfil apresentado da pessoa com excesso de peso abordada pelo Dr. Atkins.
É um livro prático pelo que não faz sentido discuti-lo de um ponto de vista literário, no entanto não deixo de recomendar!
quarta-feira, 22 de junho de 2011
terça-feira, 21 de junho de 2011
Tese e Antítese
I
Já não sei o que vale a nova idéia,
Quando a vejo nas ruas desgrenhada,
Torva no aspecto, à luz da barricada,
Como bacchante após lúbrica ceia...
Sanguinolento o olhar se lhe incendeia;
Respira fumo e fogo embriagada:
A deusa de alma vasta e sossegada
Ei-la presa das fúrias de Medeia!
Um século irritado e truculento
Chama à epilepsia pensamento,
Verbo ao estampido de pelouro e obuz...
Mas a idea é n'um mundo inalterável,
N'um cristalino céu, que vive estável...
Tu, pensamento, não és fogo, és luz!
II
N'um céu intemerato e cristalino
Pode habitar talvez um Deus distante,
Vendo passar em sonho cambiante
O Ser, como espectáculo divino.
Mas o homem, na terra onde o destino
O lançou, vive e agita-se incessante:
Enche o ar da terra o seu pulmão possante...
Cá da terra blasfema ou ergue um hino...
A idéia encarna em peitos que palpitam:
O seu pulsar são chamas que crepitam,
Paixões ardentes como vivos sóis!
Combatei pois na terra árida e bruta,
Té que a revolva o remoinhar da luta,
Té que a fecunde o sangue dos heróis!
Antero de Quental, in "Sonetos"
Já não sei o que vale a nova idéia,
Quando a vejo nas ruas desgrenhada,
Torva no aspecto, à luz da barricada,
Como bacchante após lúbrica ceia...
Sanguinolento o olhar se lhe incendeia;
Respira fumo e fogo embriagada:
A deusa de alma vasta e sossegada
Ei-la presa das fúrias de Medeia!
Um século irritado e truculento
Chama à epilepsia pensamento,
Verbo ao estampido de pelouro e obuz...
Mas a idea é n'um mundo inalterável,
N'um cristalino céu, que vive estável...
Tu, pensamento, não és fogo, és luz!
II
N'um céu intemerato e cristalino
Pode habitar talvez um Deus distante,
Vendo passar em sonho cambiante
O Ser, como espectáculo divino.
Mas o homem, na terra onde o destino
O lançou, vive e agita-se incessante:
Enche o ar da terra o seu pulmão possante...
Cá da terra blasfema ou ergue um hino...
A idéia encarna em peitos que palpitam:
O seu pulsar são chamas que crepitam,
Paixões ardentes como vivos sóis!
Combatei pois na terra árida e bruta,
Té que a revolva o remoinhar da luta,
Té que a fecunde o sangue dos heróis!
Antero de Quental, in "Sonetos"
Só para vos deixar uma coisa bonita! Gosto mesmo muito!
Bons filmes e boas leituras!
segunda-feira, 20 de junho de 2011
The Great Gatsby
Acabei de terminar The Great Gatsby de F. Scott Fitzgerald e A-D-O-R-E-I!
Uma história realmente envolvente, com personagens que têm a particularidade de agarrar realmente o leitor que tenta entende-las e avaliar o que está por detrás das descrições físicas.
A história está repleta de constantes "contratempos" e pequenas revelações que transmitem uma constante sensação de surpresa. Em relação ao Gatsby, o mistério que se vai construindo e que nunca chega a estar completamente desvendado, deixa-nos divagar sobre o seu passado e os seus sentimentos.
No fundo, trata-se de nos mostrar como é possível fazer tudo na vida sem nunca largar o passado que se amou nem ser perseguido por aquele em que se errou ou que, pelo menos, não se quer revelar, e a indagação acerca de até que ponto é compensador viver preso a um momento passado, na esperança de que, ao regressar, o momento ainda seja o mesmo, quando sabemos que nunca é.
Culmina num fim trágico resultante de uma combinação de coincidências e mal entendidos que me fizeram lembrar muito Eça ou Dostoievsky
Recomendo vivamente aos poucos que possam ainda não ter lido! Sucessor? Estou indecisa.... Em breve anunciarei!
Uma história realmente envolvente, com personagens que têm a particularidade de agarrar realmente o leitor que tenta entende-las e avaliar o que está por detrás das descrições físicas.
A história está repleta de constantes "contratempos" e pequenas revelações que transmitem uma constante sensação de surpresa. Em relação ao Gatsby, o mistério que se vai construindo e que nunca chega a estar completamente desvendado, deixa-nos divagar sobre o seu passado e os seus sentimentos.
No fundo, trata-se de nos mostrar como é possível fazer tudo na vida sem nunca largar o passado que se amou nem ser perseguido por aquele em que se errou ou que, pelo menos, não se quer revelar, e a indagação acerca de até que ponto é compensador viver preso a um momento passado, na esperança de que, ao regressar, o momento ainda seja o mesmo, quando sabemos que nunca é.
Culmina num fim trágico resultante de uma combinação de coincidências e mal entendidos que me fizeram lembrar muito Eça ou Dostoievsky
Recomendo vivamente aos poucos que possam ainda não ter lido! Sucessor? Estou indecisa.... Em breve anunciarei!
sexta-feira, 17 de junho de 2011
Pedes a Deus Quanto a ti te Quitas
QUE COM OS SEUS EXCESSOS ACELERAM A DOENÇA E A VELHICE
Que os anos sobre ti voem bem leves,
pedes a Deus; e que o rosto as pegadas
deles não sinta, e às grenhas bem penteadas
não transmita a velhice suas neves.
Isto lhe pedes, e bêbedo bebes
as vindimas em taças coroadas;
e pra teu ventre todas as manadas
que Apúlia pastam são bocados breves. .
Pedes a Deus quanto a ti te quitas;
a enfermidade e a velhice tragas
e estar isento delas solicitas.
Mas em rugosa pele dívidas pagas
das grandes bebedeiras que vomitas,
e na saúde que, comilão, estragas.
Francisco Quevedo, in 'Antologia Poética'
Tradução de José Bento
Só porque hoje estou a dar numa de moralista.... Não, não estou nada! Sabeis que sou uma rapariga de excessos, mas achei piada ao poema todo beato e certinho e cheio de moral! Teve o seu je ne sais quoi de familiar..... Enfim...
Bons filmes e boas leituras!
Que os anos sobre ti voem bem leves,
pedes a Deus; e que o rosto as pegadas
deles não sinta, e às grenhas bem penteadas
não transmita a velhice suas neves.
Isto lhe pedes, e bêbedo bebes
as vindimas em taças coroadas;
e pra teu ventre todas as manadas
que Apúlia pastam são bocados breves. .
Pedes a Deus quanto a ti te quitas;
a enfermidade e a velhice tragas
e estar isento delas solicitas.
Mas em rugosa pele dívidas pagas
das grandes bebedeiras que vomitas,
e na saúde que, comilão, estragas.
Francisco Quevedo, in 'Antologia Poética'
Tradução de José Bento
Só porque hoje estou a dar numa de moralista.... Não, não estou nada! Sabeis que sou uma rapariga de excessos, mas achei piada ao poema todo beato e certinho e cheio de moral! Teve o seu je ne sais quoi de familiar..... Enfim...
Bons filmes e boas leituras!
quinta-feira, 16 de junho de 2011
O Ateu é Deus
Deus não existe (...) A salvação de todos consiste agora em provar essa ideia a toda a gente, percebes? Quem é que há-de prová-la? Eu! Não entendo como é que até agora um ateu podia saber que Deus não existe e não se suicidava logo. Reconhecer que Deus não existe e não reconhecer ao mesmo tempo que o próprio se tornou deus é um absurdo, pois de outra maneira suicidar-se-ia inevitavelmente. Se tu o reconheces, és um rei e não te matarás, mas viverás na maior glória. Mas só o primeiro a perceber isso é que deve inevitavelmente matar-se, senão o que é que principiaria e provaria?
Sou eu que me vou suicidar para iniciar e para provar. Ainda só sou deus sem querer e sofro porque tenho o DEVER de proclamar a minha própria vontade. Todos são infelizes porque todos têm medo de afirmar a sua vontade. Se o homem até hoje tem sido tão infeliz e tão pobre, é precisamente porque tem tido medo de afirmar o ponto capital da sua vontade, recorrendo a ela às escondidas como um jovem estudante.
Eu sou profundamente infeliz porque tenho medo profundamente. O medo é a maldição do homem... Mas hei-de proclamar a minha vontade, tenho o dever de crer que não creio. E serei salvo. Só isto salvará todos os homens e há-de transformá-los fisicamente, na geração seguinte; porque, no seu estado físico actual (reflecti nisso muito tempo), o homem não pode, de modo algum, passar sem o seu velho Deus.
Durante três anos procurei o atributo da minha divindade e achei-o: o atributo da minha divindade é a minha vontade, é o livre arbítrio. É com isso que posso manifestar sobre o ponto capital a minha insubmissão e a minha terrível liberdade nova. Porque é terrível! Mato-me para afirmar a minha insubmissão e a minha terrível liberdade nova.
Fiodor Dostoievski, in 'Os Possessos' (discurso do personagem Kirilov)
Hoje apeteceu-me assim uma coisa diferente..... Preciso de ler Dostoievski de novo.... Estou com saudades!
Bons filmes e boas leituras!
Sou eu que me vou suicidar para iniciar e para provar. Ainda só sou deus sem querer e sofro porque tenho o DEVER de proclamar a minha própria vontade. Todos são infelizes porque todos têm medo de afirmar a sua vontade. Se o homem até hoje tem sido tão infeliz e tão pobre, é precisamente porque tem tido medo de afirmar o ponto capital da sua vontade, recorrendo a ela às escondidas como um jovem estudante.
Eu sou profundamente infeliz porque tenho medo profundamente. O medo é a maldição do homem... Mas hei-de proclamar a minha vontade, tenho o dever de crer que não creio. E serei salvo. Só isto salvará todos os homens e há-de transformá-los fisicamente, na geração seguinte; porque, no seu estado físico actual (reflecti nisso muito tempo), o homem não pode, de modo algum, passar sem o seu velho Deus.
Durante três anos procurei o atributo da minha divindade e achei-o: o atributo da minha divindade é a minha vontade, é o livre arbítrio. É com isso que posso manifestar sobre o ponto capital a minha insubmissão e a minha terrível liberdade nova. Porque é terrível! Mato-me para afirmar a minha insubmissão e a minha terrível liberdade nova.
Fiodor Dostoievski, in 'Os Possessos' (discurso do personagem Kirilov)
Hoje apeteceu-me assim uma coisa diferente..... Preciso de ler Dostoievski de novo.... Estou com saudades!
Bons filmes e boas leituras!
quarta-feira, 15 de junho de 2011
O sono
O sono que desce sobre mim,
O sono mental que desce fisicamente sobre mim,
O sono universal que desce individualmente sobre mim —
Esse sono
Parecerá aos outros o sono de dormir,
O sono da vontade de dormir,
O sono de ser sono.
Mas é mais, mais de dentro, mais de cima:
E o sono da soma de todas as desilusões,
É o sono da síntese de todas as desesperanças,
É o sono de haver mundo comigo lá dentro
Sem que eu houvesse contribuído em nada para isso.
O sono que desce sobre mim
É contudo como todos os sonos.
O cansaço tem ao menos brandura,
O abatimento tem ao menos sossego,
A rendição é ao menos o fim do esforço,
O fim é ao menos o já não haver que esperar.
Há um som de abrir uma janela,
Viro indiferente a cabeça para a esquerda
Por sobre o ombro que a sente,
Olho pela janela entreaberta:
A rapariga do segundo andar de defronte
Debruça-se com os olhos azuis à procura de alguém.
De quem?,
Pergunta a minha indiferença.
E tudo isso é sono.
Meu Deus, tanto sono!...
Álvaro de Campos, in "Poemas"
Heterónimo de Fernando Pessoa
E basicamente é isto, mas com menos metáforas.... *bocejo*
O sono mental que desce fisicamente sobre mim,
O sono universal que desce individualmente sobre mim —
Esse sono
Parecerá aos outros o sono de dormir,
O sono da vontade de dormir,
O sono de ser sono.
Mas é mais, mais de dentro, mais de cima:
E o sono da soma de todas as desilusões,
É o sono da síntese de todas as desesperanças,
É o sono de haver mundo comigo lá dentro
Sem que eu houvesse contribuído em nada para isso.
O sono que desce sobre mim
É contudo como todos os sonos.
O cansaço tem ao menos brandura,
O abatimento tem ao menos sossego,
A rendição é ao menos o fim do esforço,
O fim é ao menos o já não haver que esperar.
Há um som de abrir uma janela,
Viro indiferente a cabeça para a esquerda
Por sobre o ombro que a sente,
Olho pela janela entreaberta:
A rapariga do segundo andar de defronte
Debruça-se com os olhos azuis à procura de alguém.
De quem?,
Pergunta a minha indiferença.
E tudo isso é sono.
Meu Deus, tanto sono!...
Álvaro de Campos, in "Poemas"
Heterónimo de Fernando Pessoa
E basicamente é isto, mas com menos metáforas.... *bocejo*
terça-feira, 14 de junho de 2011
Parabéns atrasados
Chegam atrasados porque o dia ontem foi de morte cerebral total, de qualquer maneira não queria deixar passar em branco o aniversário de um dos poetas mais presentes neste blog: o grande, enorme, genial Fernando Pessoa!
Nasceu fez ontem 123 anos e, para a literatura, é imortal!
O poeta é um fingidor
Autopsicografia
O poeta é um fingidor.
Finge tão completamente
Que chega a fingir que é dor
A dor que deveras sente.
E os que lêem o que escreve,
Na dor lida sentem bem,
Não as duas que ele teve,
Mas só a que eles não têm.
E assim nas calhas de roda
Gira, a entreter a razão,
Esse comboio de corda
Que se chama coração.
De Fernando Pessoa
Bons filmes e boas leituras!
Nasceu fez ontem 123 anos e, para a literatura, é imortal!
O poeta é um fingidor
Autopsicografia
O poeta é um fingidor.
Finge tão completamente
Que chega a fingir que é dor
A dor que deveras sente.
E os que lêem o que escreve,
Na dor lida sentem bem,
Não as duas que ele teve,
Mas só a que eles não têm.
E assim nas calhas de roda
Gira, a entreter a razão,
Esse comboio de corda
Que se chama coração.
De Fernando Pessoa
Bons filmes e boas leituras!
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