quinta-feira, 10 de maio de 2012

Contrariedades

Eu hoje estou cruel, frenético, exigente;
Nem posso tolerar os livros mais bizarros.
Incrível! Já fumei três maços de cigarros
Consecutivamente.

Dói-me a cabeça. Abafo uns desesperos mudos:
Tanta depravação nos usos, nos costumes!
Amo, insensatamente, os ácidos, os gumes
E os ângulos agudos.

Sentei-me à secretária. Ali defronte mora
Uma infeliz, sem peito, os dois pulmões doentes;
Sofre de faltas de ar, morreram-lhe os parentes
E engoma para fora.

Pobre esqueleto branco entre as nevadas roupas!
Tão lívida! O doutor deixou-a. Mortifica.
Lidando sempre! E deve a conta na botica!
Mal ganha para sopas...

O obstáculo estimula, torna-nos perversos;
Agora sinto-me eu cheio de raivas frias,
Por causa dum jornal me rejeitar, há dias,
Um folhetim de versos.

Que mau humor! Rasguei uma epopéia morta
No fundo da gaveta. O que produz o estudo?
Mais duma redação, das que elogiam tudo,
Me tem fechado a porta.

A crítica segundo o método de Taine
Ignoram-na. Juntei numa fogueira imensa
Muitíssimos papéis inéditos. A imprensa
Vale um desdém solene.

Com raras exceções merece-me o epigrama.
Deu meia-noite; e em paz pela calçada abaixo,
Soluça um sol-e-dó. Chuvisca. O populacho
Diverte-se na lama.

Eu nunca dediquei poemas às fortunas,
Mas sim, por deferência, a amigos ou a artistas.
Independente! Só por isso os jornalistas
Me negam as colunas.

Receiam que o assinante ingênuo os abandone,
Se forem publicar tais coisas, tais autores.
Arte? Não lhes convêm, visto que os seus leitores
Deliram por Zaccone.

Um prosador qualquer desfruta fama honrosa,
Obtém dinheiro, arranja a sua coterie;
E a mim, não há questão que mais me contrarie
Do que escrever em prosa.

A adulação repugna aos sentimentos finos;
Eu raramente falo aos nossos literatos,
E apuro-me em lançar originais e exatos,
Os meus alexandrinos...

E a tísica? Fechada, e com o ferro aceso!
Ignora que a asfixia a combustão das brasas,
Não foge do estendal que lhe umedece as casas,
E fina-se ao desprezo!

Mantém-se a chá e pão! Antes entrar na cova.
Esvai-se; e todavia, à tarde, fracamente,
Oiço-a cantarolar uma canção plangente
Duma opereta nova!

Perfeitamente. Vou findar sem azedume.
Quem sabe se depois, eu rico e noutros climas,
Conseguirei reler essas antigas rimas,
Impressas em volume?

Nas letras eu conheço um campo de manobras;
Emprega-se a réclame, a intriga, o anúncio, a blague,
E esta poesia pede um editor que pague
Todas as minhas obras

E estou melhor; passou-me a cólera. E a vizinha?
A pobre engomadeira ir-se-á deitar sem ceia?
Vejo-lhe luz no quarto. Inda trabalha. É feia...
Que mundo! Coitadinha!


Cesário Verde, O Livro de Cesário Verde

Porque vos estava a fazer falta um toquezinho de genialidade fria e crua... E a mim também... Maravilha! Quanto mais leio deste senhor, menos entendo porque não gostava dele no secundário. Adolescência, porque me falhaste assim???

Bons filmes e boas leituras!

quarta-feira, 9 de maio de 2012

Féxon (I)

Hoje temos um dia reservado para a moda. Resolvi partilhar convosco alguns conjuntos que assentam bem a qualquer mulher, em qualquer altura do ano.
O problema não é tanto o preço como a raridade, não se encontram em qualquer esquina, definitivamente... Repararão que há uma peça em comum nos conjuntos de hoje que apesar de não ser, na minha opinião, sequer possível de usar, não deixa de valorizar bastante as restantes.
Mas já falei muito. As imagens que se seguem são impróprias para os corações mais fracos.

Fonte: http://time.com/

Fonte: cinealagoas.com.br

Fonte: www.flickr.com


Portanto, foi criada uma nova rubrica neste blogue... Dedicámo-nos à moda também! It's gonna be legen... wait for it... dary!
Bons filmes e boas leituras!

terça-feira, 8 de maio de 2012

The Incredible Hulk

Fonte: http://en.wikimedia.org/


Bem, chegámos a um momento em que devo ser, mais ou menos, a única pessoa que ainda não viu o The Avengers, MAS estou a trabalhar em criar o cenário para a coisa...
Este fim de semana aproveitei que as TVs querem contribuir para a loucura e vi o The Incredible Hulk que estava a dar num dos canais de séries ou filmes... Não estou a evitar publicidade, não faço é mesmo ideia!
Em relação a este filme, tenho três coisas a dizer:

1. Edward Norton
2. Liv Tyler
3. Tim Roth

E pronto. Estamos esclarecidos certo? Não? Esquisitinhos!
Então vamos lá! Como se pode perceber pelos 3 factores acima mencionados, é um filme extremamente agradável à vista! XD Agora a sério, é mesmo! Os efeitos especiais estão muito bons no sentido em que tantas vezes se esquecem de ser: quase acreditamos neles! Custa a crer que um mostro fictício possa parecer tão real.
A história, aparentemente (que mal informada que eu estava...) é a continuação do filme Hulk, e, como tal, não inclui a explicação muito detalhada (se bem que são dadas algumas indicações) de como o pacato cientista Bruce Banner veio a transformar-se no poderoso monstro verde, focando-se antes na luta deste para encontrar uma solução que lhe permita retomar uma vida normal.
Do outro lado do espectro, temos o ex-KGB Emil Blonksy, encarregue da captura de Banner, que deseja tudo menos a normalidade, estando disposto a submeter-se a quaisquer procedimentos que aumentem as suas capacidades físicas.
Desde a história do monstro que reconhece a sua amada apesar da transformação ao confronto entre o questionável herói e o inquestionável inimigo, reconhecemos constantemente aquela acção característica das histórias de super heróis!
Aconselho a quem goste do género. Não é nada de transcendente para quem não aprecia, mas vê-se bastante bem.

Bons filmes e boas leituras!


segunda-feira, 7 de maio de 2012

Cá se fazem, cá se pagam...

Sou só eu que vejo com toda a clareza, nesta expressão, não mais que uma constatação óbvia da realidade em vez de uma qualquer força sobrenatural? Há quem diga que é o karma, há quem diga que deus castiga, há quem diga que por alguma razão misteriosa ou de energias, o que se faz volta para trás a triplicar, etc. etc. Explicações sobrenaturais não faltam...
Na minha humilde opinião, não passa de probabilidade, dadas as circunstâncias.
Ora, vejamos em relação ao crime, que é assim muito rápido e óbvio:
Terei mais possibilidade de ser assassinado pela máfia se nunca tiver tido qualquer contacto com nenhum mafioso ou se tiver, com algum, trocado favores?
E como neste caso, a terrena explicação estende-se a muitos outros campos... Por exemplo, se eu sou uma pessoa emocionalmente instável que frequentemente magoa parceiros e termina relações de forma fria, o mais certo é que, quando me apaixonar a sério, seja por alguém cuja personalidade tenha algo em comum com a minha, logo, exponho-me à eventualidade de me vir a acontecer o mesmo.
Se me aproveito, digamos monetariamente, de outros, com situações "por debaixo da mesa" em que eu fico a ganhar, é mais provável que venha, nas mesmas circunstâncias a ficar a perder, pois envolvi-me, neste processo, com pessoas de carácter duvidoso que aceitam negócios obscuros e não posso denunciar a situação sob pena de sair ainda mais lesado.
Se vou de carro e passo a abrir numa rua com poças de água e peões no passeio a levar banhos por causa de mim, é mais provável que no próximo semáforo algum me parta a tromba (ah, semáforos, onde estais vós quando são necessários!?).
Podia ficar o resto do dia a dar exemplos, mas penso que já me fiz entender.

Eu não digo que crença e tal não seja fofinho, até porque "maior probabilidade" é diferente de "garantia" e claro que todos nós gostamos de ver o mauzão castigado, por isso nunca morre a esperança de que as coisas se venham a balançar, simplesmente, eu confio mais na matemática e esta, ao não mentir, diz que existe a hipótese de isso nunca acontecer... Tough luck...

Boa semana!

sexta-feira, 4 de maio de 2012

May the fourth be with you!

Diz que hoje é o Star Wars Day! Portanto, meu caros amigos geeks, May the fourth be with you!


A good weekend, you have!

quinta-feira, 3 de maio de 2012

Pecado Original

Ah, quem escreverá a história do que poderia ter sido?
Será essa, se alguém a escrever,
A verdadeira história da humanidade.

O que há é só o mundo verdadeiro, não é nós, só o mundo;
O que não há somos nós, e a verdade está aí.

Sou quem falhei ser.
Somos todos quem nos supusemos.
A nossa realidade é o que não conseguimos nunca.

Que é daquela nossa verdade — o sonho à janela da infância?
Que é daquela nossa certeza — o propósito a mesa de depois?

Medito, a cabeça curvada contra as mãos sobrepostas
Sobre o parapeito alto da janela de sacada,
Sentado de lado numa cadeira, depois de jantar.

Que é da minha realidade, que só tenho a vida?
Que é de mim, que sou só quem existo?

Quantos Césares fui!

Na alma, e com alguma verdade;
Na imaginação, e com alguma justiça;
Na inteligência, e com alguma razão —
Meu Deus! meu Deus! meu Deus!
Quantos Césares fui!
Quantos Césares fui!
Quantos Césares fui!


Álvaro de Campos, Poemas

Porque a cultura me andava a fazer falta... E a vocês... E ao blogue... E porque o Álvaro de Campos quanto mais aparece, mais bem vindo é.

Bons filmes e boas leituras!