sexta-feira, 21 de setembro de 2012

Os Portugueses São Profundamente Vaidosos

Os Portugueses são profundamente vaidosos. Quando me dizem que eu sou muito vaidosa, eu, nisso, sinto-me muito portuguesa. Quando, por exemplo, os Franceses me dizem, com uma linguagem muito catedrática, «eu conheço muito bem os Portugueses através de toda essa onda de emigração, eles são muito humildes e dizem que o lugar onde gostariam de morrer seria em França», eu digo «tenha cuidado, o português mente sempre. É como o japonês, mente sempre.» Porque tem receio de mostrar o seu complexo de superioridade. Ele acha que é imprudente e que é até disparatado, mas que faz parte da sua natureza. Portanto, apresenta uma espécie de capa e de fisionomia de humildade, modéstia, submissão. Mas não é nada disso, é justamente o contrário. Houve épocas da nossa História em que a sua verdadeira natureza pôde expandir-se sem cair no ridículo, mas há outras em que não. E então, para se defender desse ridículo, o português parece essa pessoa modesta, cordata, que não levanta demasiados problemas, seja aos regimes seja na sua vida particular.

Agustina Bessa-Luís, Dicionário Imperfeito

Hoje deparei-me com este e caiu-me "que nem ginjas". Portanto vou inclinar a cabeça com um sorriso humilde e envergonhado e um brilho orgulhoso meio escondido nos olhos e vou desfrutar do facto de ser sexta-feira! Valha-nos isso!

quarta-feira, 19 de setembro de 2012

As Farpas 1877 (a sério, não é 2012)

Ironia, verdadeira liberdade! És tu que me livras da ambição do poder, da escravidão dos partidos, da veneração da rotina, do pedantismo das sciencias, da admiração das grandes personagens, das mystificações da politica, do fanatismo dos reformadores, da superstição d'este grande Universo, e da adoração de mim mesmo.


P.J. PROUDHON



SUMMARIO

A actual situação politica. Conceituosa parabola das moscas e das maselas. O partido revolucionario e o partido conservador. A funcção de um e outro d'estes partidos. Anarchia ou retrocesso. Extincção do partido revolucionario por falta de idéas. Mancommunação conservadora. Philosophica historia de uns almocreves e de um pipo de vinho. A profunda synthese do pipo do Estado. (…)


A situação politica...


Mas, perdão - antes de encetarmos este assumpto, uma pequena historia:

Era uma vez um velho burro. Fora madraço e manhoso. Não conquistára amigos porque os não merecia. Tinham-o lançado á margem no fim da vida. Principiou a viver ao acaso, pelos montes. Um dia achava-se defronte de um vallado, estacado ao sol sobre as suas quatro patas, inerte, immovel, olhando para um cardo secco com os seus grandes olhos redondos e encovados em orbitas esqueleticas, pensando nas vicissitudes da vida e procurando arrancar do seu cerebro, para se consolar, algumas idéas philosophicas.

Passou por elle e deteve-se a contemplal-o um joven asno, no viço das illusões, cheio de amor e de zurros, de alegria e de coices. A vetusta ossada angulosa do ancião parecia furar-lhe a pelle resequída e aspera. Um espesso enxame de moscas cobria-lhe as mataduras do lombo e dava-lhe o aspecto de ter um albardão feito de zumbidos e d'asas sobre um fundo de missangas pretas e palpitantes,--coisa rabujosa á vista.

- Sacode esse mosqueiro, disse-lhe o burro novo. Dar-se-ha o caso de que, á similhança do homem, deixasses tambem tu atrophiar o precioso musculo que ahi tens na face para por meio d'elle abanares a orelha e moveres a pelle?... Sacode-te, bestiaga!

Ao que o lazarento, pausado, retorquiu:

- Não sabes o que zurras, joven temerario! O destino de quem tem maselas é que o mosqueiro o cubra. As moscas que tu vês, e de que o meu cerro é a estalagem com mesa redonda, são moscas fartas, teem a mansidão abundante dos estomagos cheios. Se eu as sacudisse, viriam outras,--as famintas, de ferrões gulosos, que zinem como frechas, pousam como causticos, mordem como furunculos. As que tu vês prestam-me um serviço impagavel:- livram-me das que podem vir; são o meu xairel benigno e suave, o meu arnez, a minha couraça. Quando te chegar a idade de seres pasto de moscas (e breve te soará essa hora porque a mocidade é, como a herva, uma ephemera transição entre o alfobre da meninice e a palha da edade madura); quando te chegar o teu dia, lembra-te, asninho imprudente, d'este conselho amigo de um burro velho, que não aprende linguas, mas que tem a experiencia que vale tanto como o ouro: Nunca sacudas mosca desde que creares masela! Teme-te dos papos vasios das revoadas novas. Papos cheios não só não mordem mas até empacham! Comprehendeste, burrinho, a philosophia da minha inercia?

Revertamos agora, como vinhamos dizendo, á situação politica.

Em toda a sociedade em movimento ha dois unicos partidos: o partido conservador e o partido revolucionario.

A funcção do partido revolucionario, qualquer que seja o seu nome--republicano, socialista, federalista, fourrierista, proudhonista, positivista, etc.--é transformar a ordem estabelecida, modificando as condições da civilisação no sentido de um mais rapido progresso.

Para este fim o partido revolucionario agita constantemente por meio de idéas novas as opiniões preconcebidas.
Como, porém, não está ainda definido o programma geral e harmonico da revolução, como a tendencia progressiva das multidões indisciplinadas se basea no sentimentalismo esteril ou no phantastico ideal methaphysico dos phraseadores eloquentes, succede que todo o esforço revolucionario representa para a sociedade um perigo de desordem, de incoherencia e de anarchia.

A funcção do partido conservador é a manutenção da ordem contra todas as invasões que directa ou indirectamente ameacem a integridade da organisação existente. Em todas as velhas sociedades os governos são por essa rasão, os inimigos natos do progresso. A evolução progressiva da humanidade realisa-se, a despeito d'elles, pela elaboração irresistivel das idéas fora da esphera official, sob a acção das descobertas da sciencia ou das suggestões da arte. O mais que fazem os governos é submetterem-se ás transformações sociaes que a solução de cada novo problema resolvido pela sciencia impõe á existencia dos povos. Os governos, portanto, sempre que uma forte effervescencia intellectual não agita a sociedade e os não abala constantemente na eminencia do seu posto forçando-os a concessões successivas, tendem ao retrocesso.

A civilisação não é na orbita politica senão o justo equilibrio das forças resultantes d'essas duas tendencias: a tendencia retrograda na ordem, a tendencia anarchica na revolução.

Em Portugal o que succede?

A vida intellectual é extremamente debil. A sciencia não tem cultores desinteressados e ardentes, a acção da arte sobre a aspiração dos espiritos é nulla.

O resultado é que os partidos de opposição, não encontrando nos phenomenos da vida nacional a profunda expressão implacavel de novas necessidades a que os governos tenham de amoldar-se, acham-se naturalmente desarmados das grandes rasões que reptam os governos a progredir ou a abdicar.

Em taes condições o partido revolucionario dentro da milicia politica, partido fabricado pelos proprios governos com a corrupção do suffragio,- sendo uma pura convenção, uma fixão constitucional, uma expressão rhetorica, sem raizes na consciencia e na vontade popular,-acabou por desapparecer inteiramente do nosso systema representativo. Ha muitos annos que a revolução não tem quem a represente no parlamento portuguez.

Ha, todavia, uma maioria parlamentar e uma opposição composta de varios grupos dissidentes. Estes grupos são fragmentos dispersos do unico partido existente - o partido conservador - fragmentos cuja gravitação constitue o organismo do poder legislativo.

Estes partidos, todos conservadores, não tendo principios proprios nem idéas fundamentaes que os distingam uns dos outros, sendo absolutamente indifferente para a ordem e para o progresso que governe um d'elles ou que governe qualquer dos outros, conchavaram-se todos e resolveram de commum accordo revesarem-se no podler e governarem alternadamente segundo o lado para que as despesas da rhetorica nos debates ou a força da corrupção na urna fizesse pesar a balança da regia escolha. Tal é o espectaculo recreativo que ha vinte annos nos esta dando a representação nacional.

Imaginem meia duzia de almocreves sequiosos que acham na estrada um pipo de vinho. Como nenhum d'elles tem mais direito que os outros a beber do pipo, combina-se que cada um d'elles ponha a bocca ao espicho e beba em quanto os pontapés dos outros o não contundirem até o ponto de o obrigar a largar as mãos da vasilha para as apertar na parte ferida pelos pontapés applicados pela companhia que espera. É exactamente o que ha muito tempo tem sido feito pelos partidos portuguezes com relação ao usofructo do poder que elles acharam na estrada, perdido.

Chegou finalmente a vez de pôr o pipo á bocca um partido excepcionalmente valoroso de sede e inconfundivel de fibra. Este partido não desemboca o pipo por mais que lhe façam. Protestações escandalisadas, de almocreves, retroam.

- Este partido abusa!

- Isto não vale!

- Isto não é do jogo!

- Elle esvasia o pipo!

- Larga o pipo, pipa!

- Larga o pipo, pimpão!

- Larga o pipo, ladrão!

E incitam-se uns aos outros até á ferocidade:

- Chega-lhe rijo!

- Mais! que lhe dôa bem!

- Rebenta-me esse ôdre!

- Racha-me esse tunel!

- Ah! cão!

O partido, porém, continua sempre a beber, e é insensivel a tudo: á dor, ao insulto, ao chasco, ao improperio, á graça pesada, á insinuação perfida e á alusão venenosa!

Em vista de uma tal pertinacia, que nós mesmos somos forçados a taxar de irregular, os partidos em expectativa do pipo, confederam-se, ferem o pacto da Granja, constituem-se n'um só partido novo, - n'uma só bocca para o pipo. Fazem um programma, redigem um manifesto, vão de terra em terra pedindo ao paiz que intervenha. Precisamente lhes occorreu n'esse momento que o pipo tem dono! que é do paiz o pipo!

Instado a intervir pelos pactuantes da Granja, pelos signatarios do manifesto, pelos auctores do novo programma, pelos oradores dos meetings revolucionarios, pelos jornaes opposicionistas, o paiz responde-lhes:

Lestes a historia do sabio burro lazarento contada pelas Farpas? Eu sou esse burro. Vós sois a revoada das novas moscas pretendendo expulsar a revoada velha. Ora, moscas por moscas - sendo meu destino que ellas sempre me cubram e me comam - prefiro as antigas moscas saciadas ás novas moscas famintas.

Deixae-me em paz. E notae que eu nem sequer vos abano as orelhas, - que é para não bolir comigo!




AS FARPAS, CHRONICA MENSAL DA POLITICA, DAS LETRAS E DOS COSTUMES, NOVA SERIE TOMO VIII, Janeiro a Fevereiro 1877, RAMALHO ORTIGÃO - EÇA DE QUEIROZ

quinta-feira, 13 de setembro de 2012

Deadlock

Quando duas pessoas igualmente burras discutem, não conseguindo formular/entender o que querem afirmar de mais do que uma maneira e, apesar de estarem a dizer o mesmo, se estão a exprimir de forma diferente.

Not sure if priceless or agonizing...


sexta-feira, 31 de agosto de 2012

A Song of Ice and Fire

Ando a ler esta saga e tenho a dizer, com a classificação de geek que isso me possa vir a valer, que estou a adorar. Já li o A Game of Thrones, que é maravilhosamente surpreendente. Apresenta-nos as personagens com as quais começamos a criar uma grande empatia e, desprovidos de alguns clichés de "bem e mal" a que estamos habituados, deixa que a história favoreça aleatoriamente uns que gostamos mais e outros que gostamos menos, chocando-nos quando tudo corre de forma imprevista mas não nos dando tempo de ficar preso a um acontecimento, feliz ou triste, porque nos bombardeia constantemente com acontecimentos novos.
Claro que nem preciso dizer que começando... Fica-se preso! Então logo de seguida veio o segundo volume da saga, A Clash of Kings, em que as personagens começam a ser cada vez mais exploradas e maduras e a história ainda mais envolvente, ou não fossemos espectadores de uma batalha épica de proporções monstruosas e repleta de reviravoltas surpreendentes. Chegamos ao final num impasse em que não temos, de todo, a certeza de quem está a ganhar este jogo...
Neste momento estou quase no final do primeiro volume do terceiro livro, A Storm of Swords, e mais uma vez, é impossível abrandar. O momento de guerra aberta com que culminou o livro anterior é seguido de uma espécie de guerra fria, em que muita estratégia é estudada mas poucas investidas são, efectivamente, feitas. Esta "paz em tempo de guerra", que não se estende aos rebeldes sem rei, acaba por ir criando um crescente de tensão que tão depressa parece ser suavizado por planos de colaboração, como intensificado por quebras de promessas. Já estou "que nem posso" para avançar para o segundo volume!!!

No fim de cada um dos dois primeiros livros (e início do terceiro), vi as respectivas séries de TV de Game of Thrones e se, por um lado, não hesito em dizer que a primeira série é uma excelente adaptação, também não consigo deixar de dizer que a segunda se afasta muito do livro, na minha opinião, para bem pior. Mas sou perfeitamente capaz de acreditar que quem veja sem ainda ter lido a considere uma excelente série.

E é isto que eu tinha para dizer...


quinta-feira, 30 de agosto de 2012

Podia falar de tanta coisa...

E vou utilizar o meu tempo de antena a fazer um breve comentário às baboseiras da Margarida Rebelo Pinto...
Deve ser realmente aborrecido uma pessoa passar horas a arranjar-se para sair de casa (nem que seja para ir à mercearia), andar com sapatos que magoam, vestidos que não deixam sentar numa posição confortável sem mostrar as cuecas e camadonas de base e afins que dão cabo da pele e tornam o ritual cada vez mais necessário, tudo para chegar ao destino (digamos um copo com os amigos) e não receber atenção nenhuma...
Pois é, é aborrecido ficar encostada a um canto numa posição desconfortável e com os pés a doer e o rímel a arder nos olhos que lacrimejam de raiva enquanto os rapazes se divertem com as miúdas que saíram de casa com aviso de 5 minutos de antecedência, por maquilhar e de ténis... Horrorosas, de mini na mão, a sentarem-se de pernas abertas (vantagens de sair de calças de ganga), a rirem alto e sem sequer reparar nas "princesas" encostadas ao canto, por mais que estas se queiram convencer que elas estão roidinhas de inveja!
Mas calma, boazonas, porque as marias rapaz, na maioria das vezes, só querem mesmo a borga, não estão ali para o engate, portanto no fim da noite, depois dos copos e da diversão com elas, elas deixam os rapazitos ali disponíveis para as boazonas... E depois das minis, eles nem reparam que as boazonas têm idade para ser suas mães. ;)

Portanto MRP, sua giraça boazona, devias era estar a agradecer! E assim podias canalizar essa raiva toda para aprender a escrever... Ou melhor ainda, para aprender uma actividade nova, quem sabe ainda não descobres qualquer coisa para a qual tenhas talento?!