quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

Chove. É Dia de Natal

Chove. É dia de Natal.
Lá para o Norte é melhor:
Há a neve que faz mal,
E o frio que ainda é pior.

E toda a gente é contente
Porque é dia de o ficar.
Chove no Natal presente.
Antes isso que nevar.

Pois apesar de ser esse
O Natal da convenção,
Quando o corpo me arrefece
Tenho o frio e Natal não.

Deixo sentir a quem quadra
E o Natal a quem o fez,
Pois se escrevo ainda outra quadra
Fico gelado dos pés. 


Fernando Pessoa, Cancioneiro

Como não tenho nada para dizer, deixei o Fernando Pessoa hoje falar por mim. Na verdade não chove nem é dia de Natal, mas abafei uma gargalhada tal ao ler este poema que não resisti a partilhá-lo. Adoro este misto de graça e depressão que só o Pessoa consegue! Espero que gostem...

Bons filmes e boas leituras!

terça-feira, 28 de fevereiro de 2012

Just Breathe

Andei mais de um ano a implicar com esta música, mesmo depois de começar a aceitar o Backspacer como o álbum espectacular que é (por acaso agora transcende-me o porquê de ter resistido tanto ao álbum, penso que foi também por causa da Just Breathe) continuei a "detestar" a música... Não será bem detestar, mas irritava-me, pronto! Não parecia Pearl Jam mas sim Eddie Vedder a solo que, do fundinho do meu coração, até sou capaz de ouvir se estiver para aí virada mas não é MESMO "a minha cena"...

Com o passar do tempo e a preguiça para tirar o telemóvel do bolso e passar a música à frente quando ouvia o Backspacer, acabei por ir notando pequenos detalhes, pormenores que me escaparam quando inicialmente a rotulei como "não Pearl Jam"...
Não sei bem precisar a que me refiro, são pequenas coisas que passaram de não existentes, porque me recusava a ouvir sequer a música decentemente, àquilo que me arrepia... As falhas na voz do Eddie (falhas é uma forma de dizer, o Senhor não tem falhas!), a maturidade do baixo e o equilíbrio da letra são o que depois de tanto tempo me fez perceber que estão ali os Pearl Jam, não os Pearl Jam de 1990 mas os de hoje, os que não têm só revoltas e ideais, têm também uma história!

Se é a minha música preferida de Pearl Jam? Não. Nem a música que para mim melhor representa Pearl Jam, nem a letra que mais me toca. Se compreendo onde se insere na carreira dos Pearl Jam? Sim, agora sim.



Partilho a versão original que é a que costumo ouvir... Se forem mesmo ao youtube têm a letra na descrição do vídeo... Enjoy!

segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012

Direito a tudo...

Eu tenho dias em que acordo um bocadinho implicativa, principalmente se se tratar de uma segunda feira logo a seguir ao Gary Oldman não ter ganho o coiso... (Só para avisar que dou aqui por encerrada toda e qualquer conversação acerca dos coisos neste blogue.)

Então reza assim: ao que parece, na instituição onde trabalho, há muitos, muitos anos, e sabe-se lá com que direcção, houve uma qualquer circular interna (ou boato?!) que estabelecia que os ordenados eram pagos a dia 27 de cada mês... Há quem diga "até", há quem dia "a partir de", na verdade, parece que ninguém sabe ao certo... Porquê? Porque tal como com tudo o que é estabelecido de forma informal, não houve grande preocupação em guardar registo, pois todos sabemos que, mesmo que o houvesse, de pouco ou nada valia.
Estabeleceu-se também, novamente de forma informal, que não era dada muita atenção às faltas, sendo que no fim do ano toda a gente teria os belos dos 25 dias de férias para gozar, quer tivesse faltado ou não durante o ano anterior.
Ainda informalmente, a instituição decidiu que ofereceria o dia de aniversário aos seus colaboradores.

Não é novidade para ninguém, pelo menos na posição de colaborador, que a crise também a nós nos está a afectar, quanto mais não seja pelos cortes a nível de pessoal que foram feitos ao longo do ano passado. Note-se que o que eu acabei de dizer é que, ao longo do ano de 2011, houve gente a ficar efectivamente SEM emprego, colegas nossos, com quem convivíamos, alguns deles, numa base diária.
Então na sequência de estarmos a ser afectados pela crise, os dias de férias passaram a ser considerados conforme definido na lei do trabalho, o dia de aniversário, não temos até agora confirmação se o vamos ter e os pagamentos são agora feitos mais perto do final do mês, eventualmente mesmo no último dia útil deste (O HORROR!).
Aparentemente, estas alterações estão a provocar um profundo sentimento de revolta nos colaboradores que têm DIREITO a receber a dia 26, a ter o dia de aniversário e a ter 25 dias de férias, independentemente de tudo o resto.

Notícias de última hora: NÃO, NÃO TÊM!!! Têm, neste momento, muita sorte por não ter os postos de trabalho em causa e por receberem, como definido na lei do trabalho, até ao último dia útil do mês. Algo que é feito, com boa vontade, em vosso favor não se torna, por mais que se repita durante muito tempo, numa obrigação! Aprendam isto para que essa indignação toda possa ser canalizada para os assuntos certos. 
Eu detesto conformismo, mas pior do que conformar-se facilmente é indignar-se indiscriminadamente, faz-nos perder a razão, faz com que quando queremos lutar por algo a que efectivamente temos direito, já sejamos encarados como aqueles que protestam por tudo e por nada e com que não sejamos ouvidos com a atenção necessária a que o nosso problema seja considerado e avaliado da melhor forma. 
Protestarmos contra tudo pode resultar em que fiquemos nós roucos e quem nos deve ouvir surdo antes de chegarmos ao momento em que realmente temos razão para protestar. É isto.

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012

Sobre os encontros em massa...

Tenho neste momento a minha caixa de entrada carregadinha de emails que dizem respeito à marcação de um jantar de curso ou de ano ou do raio que o parta...
Eu sei que não sou um exemplo típico, porque o meu curso tem mais de 200 pessoas por ano, porque não fiz o curso sempre com "o mesmo ano", por isso junta ainda mais gente e porque não sou uma pessoa particularmente sociável (apesar da universidade ter sido um dos meus picos de sociabilidade), mas a verdade é que não conheço, à vontade, oitenta porcento dos nomes constantes daquela lista e dos que conheço, poucos são aqueles com quem, efectivamente, gostaria de jantar.
Será que sou só eu que não vejo grande sentido em juntar-me com uma cambada de estranhos por razão nenhuma em particular? Ou será que é só para mim que uma situação destas se reflecte numa reunião de estranhos?
Considerei o secundário muito mais marcante nesse aspecto e, apesar de reconhecer que, hoje em dia, seríamos também desconhecidos uns para os outros (pelo menos a maioria), em tempos, fizemos todos (ou quase) parte das vidas uns dos outros. Na faculdade não, constantemente me esqueço de nomes e mesmo caras de elementos dos meus grupos de trabalho de semestre inteiros! Há um número tão grande de pessoas que "não sei bem se conheço ou se só conheço a cara" que um jantar destes ia ser recheado de situações embaraçosas de nunca ter a certeza se era suposto falar ou se falar deixaria a pessoa a pensar qualquer coisa como "Olha esta, em tantos anos de curso nunca falou e agora já me conhece"... São estas situações que me fazem concluir que estas pessoas nunca fizeram, realmente, parte da minha vida.
Claro que há também um pequeno grupo da faculdade que me foi muito próximo, que gostaria de ver e do qual tenho imensas saudades, mas se num jantar de secundário, esse grupo representa metade da mesa, num jantar de curso, representa meia dúzia de gatos pingados perdidos no meio de uma multidão...

Tenho é de me deixar de preguiças e sentar a meia dúzia de gatos pingados à minha mesa em volta de uns petiscos e umas minis e com um jogo de futebol a dar na televisão, como nos bons velhos tempos! A ver se esta coisa do jantar a que não vou serve, pelo menos, para me espicaçar nesse sentido...

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

E depois é porque há psicopatas...

Diálogo da manhã:

- Nesta tabela, o que é estabelecimento?
- É o nome do estabelecimento.
- Então e o que é negócio?
- É a descrição do negócio.
- Ah... E actividade?
- É o tipo de actividade em que o negócio se insere.
- Ah... Então temos três campos para a mesma coisa??

E nesta altura, o que se passa na minha cabeça:


O que se passa na realidade:

- Não, temos três campos para três coisas diferentes: o nome do negócio, a descrição e o tipo de actividade.
- Então mas qual é a diferença entre o negócio e a actividade?
- É que, por exemplo, o tipo de actividade "Restauração" inclui negócios como: restaurante, restaurante vegetariano, café, snack-bar... Estou a fazer-me entender??
- AAAAAAAAAAAAAAHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHH..........................

Nota mental: usar exemplos na comunicação com pessoas extremamente limitadas. Já aprendi uma coisa hoje!

Bons filmes e boas leituras!

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012

Não Choreis os Mortos

Não choreis nunca os mortos esquecidos
Na funda escuridão das sepulturas.
Deixai crescer, à solta, as ervas duras
Sobre os seus corpos vãos adormecidos.

E quando, à tarde, o Sol, entre brasidos,
Agonizar... guardai, longe, as doçuras
Das vossas orações, calmas e puras,
Para os que vivem, nudos e vencidos.

Lembrai-vos dos aflitos, dos cativos,
Da multidão sem fim dos que são vivos,
Dos tristes que não podem esquecer.

E, ao meditar, então, na paz da Morte,
Vereis, talvez, como é suave a sorte
Daqueles que deixaram de sofrer.


Pedro Homem de MelloCaravela ao Mar

Tão simples e tão certo... Às vezes custa, umas mais que outras, mas no fim, acaba por ser sempre verdade.

Bons filmes e boas leituras!

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012

Ai Fiódor, sabes tanto!

Porque é que os corpos dentro dos seus caixões são tão pesados ? Ele dizem que é devido a algum tipo de inércia, que o corpo já não é mais dirigido pelo seu dono... ou alguma tolice desse tipo, em oposição às leis da mecânica e do senso comum. Eu não gosto de ouvir pessoas que não têm mais que uma educação geral aventurarem-se a resolver problemas que requerem um conhecimento especial; e connosco isso acontece continuamente. Os cidadãos gostam muito de dar opiniões sobre assuntos que são do foro do soldado ou até mesmo do marechal de campo; enquanto homens que foram educados como engenheiros preferem discutir filosofia e economia política.

Fiódor Dostoiévski, in Bobok

Mas como? Como é que este homem é tão genial? O que ele descreve aqui, penso eu, é um pecado que todos cometemos... Só que não falta hoje em dia quem faça disso vida, e é aí que começa realmente a fazer confusão. Adorei este excerto e tenho MESMO de ver se encontro este conto!

Bons filmes e boas leituras!